Parabéns meu querido Recife
- 16 de mar.
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O Foral, documento datado de 12 de março de 1537, foi o primeiro documento que citou a existência do povoado batizado depois de Recife, um porto onde então viviam pescadores, marinheiros e mercadores. Olinda era dona do pedaço e ficava a uma légua de distância. O Recife foi crescendo, ganhou autonomia, virou o jogo e deu no que deu.
Hoje, 12 de março de 2026, aniversário simbólico da cidade, resolvi dar um tempo nos compromissos e fazer um rolê por São José, um dos mais antigos bairros e onde ainda há alguns resquícios do Recife velho. São José sempre funcionou como uma espécie de espelho da cidade: ali se misturam a história, a arquitetura, o comércio, a fé, os tipos humanos e as contradições que formam o Recife.
Cheguei ao centro no final da manhã, com a claridade entre chuvas.
Não vou aqui descrever a antipatia dos orientais negociando contrabando e desfigurando o restinho de cidade.Nem citarei o Beco do Sirigado, antigo mercado de peixe que virou frevo de André Rio e agora chamam de Beco das Calcinhas, que nos saúdam às centenas expostas em todas as portas, tabuleiros e vitrines.Não lamentarei a ausência de Vavá no ponto de táxi, nem da banca de Constantino com seus discos de frevo.
Nada direi do finado Caldinho do Sargento ou do lixo acumulado na Rua das Águas Verdes.
Vou ignorar a eterna reforma no Mercado de São José, que se arrasta a passo de lesma.
Fecho o nariz e passo ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos.
Coloco duas máscaras e caminho pela Praça Dom Vital.
Fujo dos descuidistas, das motos e dos camelôs e compro uma havaiana azul e branca das antigas na Rua dos Pescadores.
Rumo para a Rua de Santa Rita e como um pastel com refresco de caju num boteco que sobrevive desde os tempos da sua vizinha, a antiga rodoviária.
Procuro descanso para o corpo, a mente e os olhos na penumbra acolhedora da deserta Igreja de São José do Ribamar. A guardiã do templo me espia, encolhida por trás do altar, iluminada pelo Santíssimo e com uma privilegiada visão do vuco-vuco.
A igreja é como um oásis nesse deserto de sossego, limpeza e civilidade em que transformaram o bairro.
Aliás, não sei o que restaria da memória arquitetônica desta cidade se não fossem as igrejas, as pontes e uns poucos fortes que resistiram às reformas. Salva-nos a cultura, a gastronomia e olhe lá.
As velhas igrejas, porém, vazias e silentes, estão todas de pé e de portas abertas nessa manhã comercial.
Gostaria de lhe parabenizar, Recife. Mas, infelizmente, esses 489 aninhos poderiam ter sido diferentes.
Quanto ao simbolismo da data, depois eu falo.

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